- O que faz aqui?
- Estava passando aqui perto...
- A uma hora dessas?
- ... e resolvi entrar.
- Mas são quase onze horas da noite!
- Pensei que fosse bem vindo...
- Não, não é isso. Não entenda mal...
- Tudo bem, volto outra hora se preferir.
- Relaxa... tudo bem, entra.
- Não estou sendo incoveniente?
- Não, também não é isso, é que...
- O que é então?
- É que me pegou de surpresa.
- Ué, mas já não estava aqui?
- Sim, estava. Mas não esperava... que fosse começar a escrever.
- E ia ficar só olhando para...? E depois, repare bem, quem começou?
- Não tem sono?
- Ainda não...
- E quanto mais pretende ficar?
- O quanto mais quiser.
- Quer companhia? Já pensava em dormir...
- Sim, só por duas linhas...
- Mais uma??
- Não, vamos agora. Nós dois.
Esquiz(it)ofrênico
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Polipolar
Curto
Grosso
Suscinto
Sensível
Prolixo
Porque continuo in constante contestação de mim mesmo e não me acomodo ao equilíbrio ao qual me justifico.
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Cycle Defrost
Faxinando as idéias, retorno depois de um período de pensamentos congelados...
Deixando o sentimento escorrer, mas ainda sem noção de quanto tempo leva para evaporar e aquecer.
Alvejado por Alieksandr Míchkin
O conto do elevador
Sempre que entravam no elevador, ela lembrava:
- Um dia, ainda te amarro aqui, num banquinho, com um bloco de papel na mão. Não é possível que não saia alguma coisa!
Era um ato tão corriqueiro...
Apertar o botão.
Esperar.
Entrar.
Ver a grade sanfonada fechar.
Apertar novamente outro botão.
Descer, subir.
Ver a grade de ferro abrir.
Sair.
... que não imaginava o que viria motivá-lo, a escrever sobre aquele troço.
Talvez existisse alguma fantasia que ela não havia contado.
Uma que os dois ainda não tivessem realizado alí, ou uma que esperasse ele adivinhar... talvez.
Apesar de evidente, o mistério somente se revelaria por volta da vigésima linha...
- É, amor. Um dia sai, tá? - encerrava, na maioria das vezes com um beijo, ou um cheiro no cangote.
A verdade, é que nunca lembrava.
Não, na verdade mesmo, nunca havia sequer tentado.
Mas verdade, verdadeira e essa, absoluta, é que nunca se interessou.
Atormentado - por ironia do destino - não pensava em outra coisa nos últimos 15 dias.
E sempre de forma mais violenta, a cada vez em que saia de casa, ou chegava da rua.
Bastava ouvir a "ratoeira" fechar, para lembrar...
- Qual andar?
- Nono. O vermelhinho.
- Uau! Cobertura! - Disse ela, brincando de ascensorista, já na primeira vez que subiam juntos ao 902.
A porta velha, com a mola desregulada, fechava de vez, emitindo um estrondo que ecoava pelo corredor.
CABLAAAMMMM!!!
A saudade é um sentimento perturbador.
Quando ela anunciou a viagem, ele pensou antecipadamente como seriam difíceis aqueles dias.
Dormir com os quatro travesseiros só para ele, sem ter os pés enroscados aos dela.
Não ouvir os gemidos que ela solta num abraço apertado.
Assistir a um filme sozinho, numa entediante tarde de domingo.
Protestou:
-Três semanas é demais!
Onde é que já se viu uma coisa dessas?
Pode tirar o cavalinho da chuva...
E amarrou a cara.
Sabia que o teatrinho de nada adiantaria, caso ela estivesse mesmo determinada a passar os vinte e poucos dias com uma amiga na Europa.
O fato é que se organizou para passar, apenas duas semanas.
Menos mal.
Desta forma, tinha a impressão de que, se assim resolveu, teria sido por sua causa.
Desmanchou metade do franzido da testa.
Entre o anúncio e a viagem propriamente dita, passaram-se três, talvez quatro meses.
Foi justo neste intervalo de tempo, que surgiu a idéia que deveria escrever um conto, tendo o elevador como cenário.
Adorava a idéia de que lá, já fora locação para um curta-metragem pernambucano.
- Ah! Um dia... e só te solto depois que você escrever pelo menos umas três linhas! - Insistia.
Na manhã de oito de outubro, despediram-se aos beijos na porta do carro.
Subindo de volta para o apartamento, sentiu o primeiro sintoma...
Um aperto no peito ao apertar, ele mesmo, o botão vermelho do nono andar.
24.10.2007
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Com os pés no chão
Não era repentina a sua fixação por pés.
Tinha de admitir que desde muito tempo dedicava atenção a olhar os pés das pessoas, principalmente os das mulheres.
Nunca foi de olhar para baixo, muito pelo contrário.
Altivo, nariz sempre para o alto, reservado, olhava os outros sempre de cima a baixo. Cultivava a vaidade e o orgulho como poucos, mas não chegava a ser egoísta, estava mais para egocêntrico.
Pelo menos uma vez por semana, ia ao pedicuro cuidar dos seus pés e observar os demais.
Um pé magrinho, pardo, dedos compridos, 38/39 talvez. A sola dos pés alva, bem definida. Não chegava a ser bonito, preferia os gordinhos, mas naqueles pés... havia... Classe.
Da primeira vez ficou os quarenta e cinco minutos de sua sessão, observando-os esperar pela vez. Inquietos, balançavam com a impaciência de que estavam na iminência de perder um compromisso inadiável.
A saia comprida, ora abria, ora fechava o véu que se estendia por todo o comprimento das pernas e lambiam-lhe os tornozelos.
Delicado, clássico, atrevido!
Apaixonou-se.
Como suas idas e horários nem sempre coincidiam, passou a freqüentar o salão duas vezes por semana, sem muito sucesso.
Quando se encontravam, nunca falava nada. Apenas olhava, fantasiando os lugares por onde teriam passado, aonde iriam quando saíssem dali. Se sentiam frio à noite e usavam meias, se eram os responsáveis por checar a temperatura da água ao tomar banho... O cheiro que teriam.
Já haviam se passado seis meses desde o último encontro.
A experiência de hoje, porém era inédita.
Dezenas de pés se aglomeravam em câmera lenta ao seu redor.
Observou cada detalhe como jamais havia feito.
Sapatos, sandálias, salto altos, formato dos dedos e unhas, comprimento, se haviam ou não joanetes.
Despertou do transe ao ouvir o som de buzinas. O trânsito havia parado.
Refez os últimos segundos...
Viu os pés de seus sonhos passarem em sentido contrário, abrindo uma sombrinha vermelha, na calçada, do outro lado da rua.
De ímpeto, atravessou sem olhar o sinal, nem para os lados.
O motorista do ônibus não teve tempo pra pensar em nada. Apenas freou ao ver o vulto se aproximando.
Um barulho seco. Uma mancha de sangue se misturando à chuva no limpador de pára-brisa.
Ouviu uma voz, que parecia vir de um coturno, ordenar - Afastem-se, vamos afastem-se! Abram espaço!
Com a cara no asfalto, deu-se conta do atropelamento.
Reconheceu-a pelo dedo mindinho.
Reconheceu que não podia alimentar qualquer tipo de esperança.
Olhou-a de baixo a cima.
Não conseguiu expressar nada, mas se despediu.
Fechou os olhos e morreu em paz.
Alieksandr Mìchkin
26.09.2007
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Foi-se
Pior que esquecer uma idéia, é ter um sentimento perdido.
Por mais que tente recuperá-lo...
num conto... num consigo.
Alieksandr Míchkin
23.09.2007
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Retrovisor
Sou um espelho refletindo o que está para acontecer em mim mesmo
... às vezes, já passei e nem me vi!
Alieksandr Míchkin
09.09.2007
Alvejado por Alieksandr Míchkin
3x4
Quem me vê nas antigas fotografias
não me reconhece mais...
nem eu.
Quem me lê,
não me desconhece mais
do que eu!
Alieksandr Míchkin
09.09.2007
Alvejado por Alieksandr Míchkin
ego estado
ex,
cêntrico,
esgotado,
ego,
sem ti, se...
idade,
individualismo,
meu,
umbigo,
cheio!
e-eu, me-medo, mim...
comigo.
04.09.2007
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Hai Kai
O poeta procurava por um lugar para passar a noite.
Perguntou-me pelos hotéis das proximidades...
-Sabes de algum, onde se possa passar a noite por uns R$20,00?
Respondi que talvez um, na Rua da União... mas desconhecia valores.
Enquanto isso, ele justificava a necessidade de dormir aquela noite fora de casa. Ouvindo esse seu tom de voz, tão "maduro", divaguei em relâmpago...
(apesar dos sulcos na face, ele conseguiu preservar o coração ingênuo como o de uma criança... eis um grande homem!)
-Falou, meu velho, sucesso amanhã! Tudo vai dar certo, você vai ver.
Ele brincou e sorrindo, se garantiu...
-E você tem alguma dívida?
E me sentindo um quase velho, fiz as contas de quantos anos faltavam para alcançar os seus quarenta e tantos, fiz as contas de quanto tinha gastado no bar, fiz as contas de quantas horas eu teria até o trabalho no dia seguinte, levantei e respondi:
- Dúvidas, as tenho pouco, já dívidas...
Paguei a conta, dei-lhe um abraço.
Há uns cinco, seis passos de distância, gritou qualquer coisa sobre eu ter feito um "ráicai"... não entendi o que quis dizer.
(deve ser coisa de poeta)
Nos despedimos de longe e fomos, cada um, pra um lado diferente.
03.09.2007
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
... insólita e solitária
Meus olhos refletidos
já não enxergam nada,
nada que não seja o teu reflexo.
Queria tirar do espelho
estas pendências sem nexo,
perpetuadas em noites
de insônia, insólita, solitária.
Esta carência do teu cheiro,
do teu beijo, do teu sexo,
provocada pela tua ausência
voluntária.
Meus olhos entorpecidos
já não enxergam mais nada,
nada que não seja devaneio.
Queria tirar do travesseiro
o falso amparo do teu seio,
que marcado em minha face,
me afoga no afago do teu fogo.
Onde mergulho e me lanço
sem medo, sem receio,
de que possa estar perdido
no teu jogo.
Meus olhos perdidos
já não enxergam nada,
nada que não seja o teu vulto.
Queria tirar do teto
o teu corpo como insulto,
projetado no escuro,
escarrado, encarnado de escarne.
Absorto do desejo
de adorá-lo absoluto,
e fazê-lo trêmulo,
triunfante em minha carne.
19.09.2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Ébrio
Não me apetecem os prazeres comedidos
me embriago,
me lanço,
enlouqueço
...
e perco os sentidos
17.09.2004
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
ParaCêtaMol
Abra a boca e diga:
Ahhhhhhhhhhhhhhh...
O tempo é o melhor remédio!
Eu sei, eu sei...
Mas é ministrado em conta-gotas.
30.07.2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
BirD day (UM DIA)
meu dia
de passarinho
vai ser d´eu ser livre
sem gaiola
sem culpa
sem pena
sem minhocas na cabeça
assobiando
"Don't worry about a thing..."
sem parar
falta pouco
pra meu dia de passarinho
16.07.2007
Alieksandr Míchkin
"Don't worry about a thing
cause every little thing is gonna be alright
don't worry about a thing
every little thing is gonna be alright
Rise up this morning
smiled with the rising sun
three little birds
pitch by my door step
singing sweet songs
of melodies pure and true
saying, this is my message to you-ou-ou:
Don't worry about a thing..."
Bob Marley - Three Little Birds
Alvejado por Alieksandr Míchkin
in transi(a)tividade
ALVEJAR
v. tr.,
branquear;
apontar;
atirar ao alvo;
tomar como alvo;
v. int.,
começar a aparecer;
mostrar-se alvo.
(...)
est'sou in'atividade in'transitiva.
13.07.2007
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Quando eu era eu...
quando eu estive por lá,
numa vida passada...
não imaginava que fosse
para deixar de existir...
quando morri e parti,
não sabia que...
para um purgatório...
Hoje sou mais um homônimo
em regressão.
04.07.2007
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Assalto à boca armada
Sinal vermelho, 7h05 da manhã
Enlouqueceu ao ver aqueles lábios... e avançou.
TOC, TOC, TOC, TOC, TOC...
Retocando a maquiagem, ela olha e, com um sorriso no rosto, baixa o vidro bem devagar.
- Bora moça... Bora! Passa um beijo, rápido, passa um beijo!
Ordenou, entre os dentes.
- Bora, porra! Agora! Passa um beijo, logo!
Ela (ce)deu e o sinal abriu...
Rápida, engatou a primeira e foi embora.
(de pernas bambas, nem olhou pelo retrovisor...)
21.12.2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Variações em terceira pessoa
Ele gosta dela.
(...)
Variação 1:
Ele gosta tanto dela!
Variação 2:
... como ele gosta dela!
Variação 3:
É dela que ele gosta.
Variação 4:
Ela gosta de que ele goste dela.
Variação 5:
Ele gosta de que ela goste dele gostar dela.
Variação 6:
Ele gosta ainda mais dela, quando sente que ela gosta que ele goste.
Variação 7:
Ele gosta do gosto que ela tem.
Variação 8:
Ele gosta do gosto de quero mais, que ela deixa nele.
Variação 9:
Ele gosta de que ela tenha um bom gosto.
Variação 10:
Ele também tem bom gosto.
Variação 11:
Ele gosta de quase tudo nela.
Variação 12:
Ele quer gostar ainda mais dela.
Variação 13:
Ele gosta de saber que ainda há muito do que se gostar nela.
Variação 14:
Ela também gosta dele.
Variação 15:
Eles se gostam.
07.12.2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Mensagem
Deixou-lhe um livro e a recomendação de uma crônica.
Não, essa não foi a primeira vez... mas da anterior não houve tempo, devolveu antes mesmo de chegar ao texto indicado no sumário.
Na verdade, das duas páginas, queria que ele lesse apenas uma frase...
Percebeu.
Ligou e disse:
- Desce... tenho uma coisa pra te dar...
Tinha esquecido...
Distraiu-se com a saudade, com a fome, com a sede...
Com a volta no quarteirão...
Com os guardas de trânsito...
Com o beijo na boca, parados na lombada eletrônica...
Com o desejo...
Com o copo d'água.
O devolveu à rotina, foi-se e voltou.
- Não é presente não, viu?
(isso, foi o que ela pensou...)
Pôde vê-los naquelas linhas.
O remeteram às que escreveu.
Rastros que deixou pra que ela (o) encontrasse...
um encontro de suas ausências.
"... o toque do telefone invadindo os cômodos da casa..."
(as mensagens fluindo em suas entrelinhas)
Aquelas lembranças se confundindo com as dele...
(menos de doze horas entre uma história e outra)
Tudo tão próximo. Tudo tão real.
Bastava trocar o mobiliário.
Mas... as pernas... tremendo no mesmo ângulo, na mesma posição...
pelo mesmo motivo, com o mesmo objetivo...
e ainda...
possivelmente...
após ouvir...
as mesmas safadezas...
(huummm)
- Goztasse?
- Muito... uma delícia.
Respondeu numa "quase" certeza de que, o outro, se tivesse sido lido, não teria sido tão bom.
Afinal, aquelas, são páginas viradas.
Passou o dedo na língua e passou à seguinte...
Reencontraram-se...
E agora, continuam a sua história.
06.12.2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Reticente
... foi quando ela concordou comigo
Não,
querida,
eu não sou tão bom
em pontuar...
E tem mais,
eu me atrapalho
com as vírgulas...
Mas,
admito,
sou muito bom
com as reticências.
04.12.2006
Aliksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Na corda bomba
Voltas e voltas sem sair do lugar, aqui, ó, em mim mesmo.
Quarto, sala, cozinha, quarto, banheiro, cozinha, sala, quarto...
Vontade de fumar.
Vontade de beber.
Vontade de comer.
Vontade...
Carência oral.
Ovo frito, copo de leite, pão de centeio, requeijão...
Nem pisei na varanda, nem levantei as cortinas do quarto, nem olhei pra rua, nem olhei para o céu ainda hoje, mas sei que o dia está bonito e eu já perdi quase metade dele...
nem aí pra nada...
A necessidade fisiológica começa a interferir na psicológica.
(e vice-versa ?)
Frito na cama. Congelo por dentro.
Choque térmico...
Pavio curto, implosão...
... crise de abstinência.
18.11.2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Heterônimo
O anonimato é uma manifestação hipócrita do silêncio.
(anônimo)
16.11.2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Gustação
- ... existe diferença entre amargo e azedo?
A pergunta veio do nada, assim, espontaneamente, atravessando as conversas que se cruzavam na mesa.
Todos sorriram, unânimes.
Talvez pela ingenuidade, talvez pela forma de segurar o cigarro e soltar a fumaça, talvez pelo sotaque carioca, levemente amaciado por uns goles de cerveja.
Eu respondi que sim, claro...
- Não é igual?
- Não.
- Mas é bem parecido, né?
- Não.
- Então me explica, qual é a diferença entre um sabor amargo e um sabor azedo.
- hummm...
- De uma forma poética!
Sorriu.
- Me explica a diferença entre amargo e azedo, de forma poética...
Continuou sorrindo e eu sorri de volta.
Amargo.
É o gosto que tem o beijo de uma mulher que te trai.
Azedo.
É o gosto que tem o beijo de uma mulher que não te ama.
(...)
Satisfeita, chamou o garçom e pediu mais uma cerveja pra todo mundo.
15.11.2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Oirbìliuqe
Acordar com o pé esquerdo,
é um exercício de direito.
Um ante o do outro
estou a um passo do equilíbrio.
(re)Capitulando os sentimentos...
Não sou eu quem anda para trás.
12.11.2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
A.dor.ação
Há gente que se doa demais...
doa a quem doer!
E a gente ainda se dói por isso!
10.2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Blank Blue
Azul céu.
Amplo, imenso, intenso.
Um vento seco soprando,
vazio.
O sol lasca minha moleira,
amorenando meu rosto sem moldura.
Nuvens esparsas, pouca sombra.
Lá em cima também sou deserto
e no horizonte,
só mais uma miragem.
08.11.2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
A.A.
- Boa noite...
- Meu nome é Alexandre...
- Eu sou amólatra...
- E hoje eu não amei.
08.11.2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Quem?
Quem é você além de mim,
além daquela que vi no espelho?
Quem é você após si mesma,
após reconhecer-se em mim?
Quem somos nós agora,
agora que ainda não nos descobrimos por completo?
06.11.2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Há algum tempo atrás...
O mistério do tempo é ser algo indecifrável, imprevisível e inconsequente... e por isso mesmo, não ter qualquer obrigação de representar nada.
1998
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Teoria do resfriamento cefálico
Uma e trinta.
Quatorze do nove do dois mil e seis.
Mal acabou de chegar em casa.
Cerveja cara embebeda sim, quem disse que não?
Ah, depois de um dia como o que teve hoje (alguns poderiam se referir a este dia, já como o "ontem"), é muito menos que o merecido...
"ah... "
É como se estivesse falando de verdade, né?
"Ao vivo e a cores"... Diga aí!?
Quase não parou, mal lembra de quando teve tempo de respirar.
Corre-corre do caralho.
(ei não se iluda, esse aqui sou eu fingindo que é outro... tudo bem, tecla SAP desnecessária para os mais antenados)
...então, ele...
Fez a viagem de ônibus de volta pra casa, ouvindo radiodread...
Leu algumas linhas e terminou a história.
(quatro, cinco? noves fora, quanto?)
Fechou o livro...
Usou o marcador personalizado.
- Que artista precoce! - pensou alto, em voz baixa (?).
Sorriu sozinho.
Suspirou.
"E Esmé teve o seu texto com amor e sordidez..."
Fechou o livro como quem decepa um membro...
Fechou o livro como quem decepa um sentimento...
Com o quê dos personagens ainda se identificaria?
Pensava a cada vez que usava o marcador para guardar o ponto de retomada.
Pensava se havia existido um ponto de tomada.
Fechou o livro decepando o pensamento...
Abdicou da idéia de ir botar as lembranças para dormir.
Outros bohemios já desfrutavam do seu habitat... quase natural.
Praticamente o quintal de casa!
- Porra! Hoje vou ficar de pé?... Ah, normal!
Chegou tarde.
Desta vez, não havia banco para sentar.
Uns outros três já usufruiam do balcão.
Nenhum, nem ao menos original...
Nem precisou fazer o pedido desta vez, entenderam como se fosse telepatia.
Bebeu vagarosamente, curtindo e balançando a tulipa.
Desencostava, virava e olhava pra rua, virava de volta.
Com sorte foi convidado à conversa.
E como este já não seria mesmo um dia assim, tão introspectivo...
Aceitou o convite.
Foi simpático. Interagiu. Opinou.
Mas se mantendo na maior parte do tempo, ouvinte, como de costume.
Afinal, o estranho alí, entre os outros, era ele.
Depois de algum tempo, pausa para ir ao banheiro.
Uhhhh...
Mais uma, mais uma... pediu sem falar nada, exibindo a tulipa vazia.
(vou parar de contar por aqui, não quero julgamentos a respeito da disposição alcoólica do nosso personagem...)
- Cara, essa cerveja tá tão bonita que tá me dando inveja!
- Ela é ótima... e hoje eu tô merecendo...
Chegaram mais dois do nada e depois outros dois, expulsos do bar do outro lado da rua.
Olhadas e comentários unânimes para a mulher que passa... cheia e dona de si.
- Espivitada!
- Determinada como quem fosse dar o flagra!
- É...
- Nossa Senhora!
- Ô danada...
(e acabou, que ninguém reparou quando ela foi embora)
- Bom dia!
- Oi!
- Oi!
(um abraço exageradamente apertado e de brinde um beijo quase no canto da boca)
(foi mesmo? ah, foi quase, quase isso... e achou um pouco fora de propósito...)
- Você está lindo!
(e , apesar de "se achar", o que fazia, acreditava? e achou a cena um pouco exagerada...)
- Eu sempre fui, né?
(risos)
- E como é que você está?
- Ah, tô bem... Quantos anos, hein?
- É, muitos...
(sorriu e achou que nem valia a pena fazer as contas...)
Já nutriu rancor... sentiu mágoa... já não entendeu e quis entender...
Achava bom este tipo de reencontro, pois tinha a oportunidade de se sentir de alma limpa.
Bom, agora passou...
Antes não tivesse, naquele tempo, tanta ansiedade no peito.
Hoje, nenhum ranço existia mais.
Ultimamente vinha até se sentindo mais "adulto".
Melhor pra ele.
Política, futebol e agora, só falta falar de religião dentre os assuntos proibidos...
- Ô país assistencialista miserável...
- É isso aí, o nordestino é um "povo muito agradecido"...
Ironia e zombação.
Mas é verdade... e o pavio se acende...
Fsssssssssssssssssssssssssssssssss...
Vai ao banheiro e a conversa se desfaz.
Deixa a "mais uma", recém-chegada, exposta no balcão quase maltratada... abandonada, sozinha ao lado da pasta do trabalho.
Na volta, o primeiro gole tranforma-se em declaração de amor.
- Que delícia.
Se estivesse usando bigode ia ter a espuma cremosa pra chupar com a boca.
A última é tomada mais rápido.
- O chato é que deve esquentar logo, né?
- Que nada, não dá tempo. Olha só...
E na empolgação, desenvolveu uma teoria que explica o porquê da cerveja não esquentar naquela tulipa.
Sem se dar conta, punha em prática um velho método de esfriar a cabeça.
14.09.2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Vai saber...?
Hum...
Faziam exatos (mentira, quase isso) vinte minutos que ela havia ido.
Há mais ou menos este mesmo tempo, que já sentia falta...
Tinha pedido pra que ela ficasse por mais um instante.
- Mais cinco minutinhos, tá certo?
Concordou com a cabeça, respondendo "tá", se dando por satisfeito.
Se sentia confuso.
(falta de quê, velho? falta de quê...)
Era difícil não sentir-se exposto.
De um tempo pra cá, vinha se abrindo consigo mesmo.
Se experimentando... um passo de cada vez.
Hum...
Faziam exatas (tá bom, exatas não...) vinte e quatro horas que haviam se visto pela última vez... quer dizer, antes de agora, do que precedeu os vinte minutos.
Passou mais ou menos este mesmo tempo, pensando...
(pensando no quê, velho? pensando no quê...)
Mas, eram tão poucas lembranças... isso é... isso é tão quase assustador.
- ...é tão pouca pouca coisa pra lembrar, não é?!
Disse ela, admirada, alguns minutos antes dos cinco fixados no acordo.
Era só uma vontade de ver novamente, tudo bem, mas era estranho...
(estranho por que, velho? estranho porque...)
Tentava não pensar nisso.
- Homem não pensa "nessas coisas" - e emendou - mulher sim, é que fica pensando "nessas coisas".
Não me venha dizer que é estranho pra você...
Disse ela, virando-se de costas, pouco antes de ir.
E o fez pensar e lembrar, que um homem pensa "nessas coisas" sim.
O alcançou sem querer.
Talvez até quisesse, mas naquele momento era possível que não fosse esta a sua intenção.
Enfim...
Hum...
Fazia quase uma semana que haviam se conhecido...
Encostado naquele balcão pela segunda vez, na mesma noite...
... noite sem expectativas.
Indo pra lá, arrastando os chinelos cruzou as duas pontes.
Os policiais que viu pelo caminho, não suspeitaram de nada...
- Eu também sou um ladrão. Hoje roubei minha atenção e não a dou a ninguém.
Pensou, enquanto passava defronte ao teatro em direção ao palácio.
Já era mais de vinte e três horas.
Sem olhar para os lados, dava uma chance para a segunda cerveja.
E ela se aproximou...
Hum...
Não fazia nem cinco minutos que ela tinha ligado.
Braços sobre o peito, olhando para o teto.
Quarto escuro.
Tinha colocado Marisa Monte pra tocar...
Vai saber...
Vai saber...
Vai saber...
Voltou à cama, lembrando o que tinha pra lembrar.
Ela conseguia alcançá-lo e no fundo, era isso o que ele desejava.
Deixar de ser inalcansável.
(mas por que tão rápido, cacete? por que tão rápido...)
Pensava sobre, de quem seria o mérito.
Pensava que não havia porque pensar sobre isso.
- Estar feliz mesmo, de verdade, é não ter consciência de que felicidade existe...
Lembrou.
Parou de escrever...
Salvou o arquivo, desligou o computador...
Parou de pensar na vida.
(vai viver, velho. vai viver...)
Pegou o celular...
E foi.
09.09.2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Meu domingão
Família é massa.
Estive pensando nisso desde cedo.
Melhor, desde ontem quando admiti (pela segunda vez) que ela é a minha referência pra tantas coisas...
pop rock,
cumbia,
pagode.
Menino classe média... (baixa)
A minha origem suburbana não me nega.
Fodam-se os programas "cabeça".
Hoje é dia de samba, suor, cerveja e futebol.
Sentado na varanda e olhando o povo "passar para" e "voltar da" praia.
olho pro sol... lembro do nascer... do se pôr... mas agora é só escaldo.
Calor do caralho!
Me pego entoando as músicas que saem do micro-system gradiente.
...
Zeca Pagodinho
"Não sou mais disso"
e
Nelson Gonçalves
"Vermelho 27"
...
Pratinho de tira-gosto e cerveja gelada do cunhado, é o que há...
Acendo um cigarro mentolado.
Mamãe reclama.
- Ah, é só essa carteira...
Frango assado, calabresa e sarapetel.
Tudo que a minha gastrite abomina.
Foda-se!
É fim de semana em família, e tá do caralho!
Como a muito tempo não era... já cheguei de ressaca e ninguem percebeu.
(a noite de sábado foi "ilustrada")
"... o neguinho gostou da filha da madame, que nós chamanhos sinhá..."
Alegria.
Conversa fiada.
Dou um abraço, beijo e elogio o casamento de minha irmã.
Tirando os estresses, desejo um assim pra mim.
(um dia, quem sabe, quero ter meus próprios estresses...)
Amor duradouro, respeito e uma filha linda...
Sou apaixonado por minha sobrinha, já é quase uma mocinha...
Patina do quarto pra sala e da varanda pra cozinha.
(Meus Deus, será que um dia farei uma criatura tão linda assim?)
Peço um beijo e ela nega, metida a besta, mas acaba cedendo.
Faço uma fotografia com a câmera do celular.
- É pra quando tu me ligar aparecer tua foto, titio...
- Mas eu não posso te ligar, porque não tenho crédito, Xande.
(ela só tem nove anos e, enxerida, já tem um celular. pode?)
- Titio... (é assim que a chamo) tu sabe qual é a criaturinha de um metro e quarenta, que eu mais amo nesse mundo?
Ela responde:
- Eita! Eu não tenho um metro e quarenta não!
- Oxe! Como é que tu sabia que era tu?
Ela faz de conta que ficou sem graça...
Sorrio mais uma vez.
Vovó liga e me pedem para atender.
Que mal pode acontecer?
Conto as últimas novidades da minha vida e ela finge não se interessar.
Questiona a minha inteligência. Acusa-me de esperteza.
- Sendo eu seu neto, filho do seu filho, o que a senhora acha?
Me solta mais uma pilhéria...
Sorrio.
Eu estou bem demais para me deixar contaminar.
Ela tem o poder de tirar qualquer um do sério...
Me despeço com um beijo e o desejo de lhe dar uma abraço.
(mas duvido que ela reconheça que seria uma boa idéia)
Volto à varanda.
Cachaça, mel de engenho e algo mais...
Isso aqui tá uma coisa!
Deixo a cerveja de lado.
Santa Cruz X São Paulo no Arruda.
- E aí...?
Eu que não tô nem aí pra futebol, me escalo pra ir ao estádio com o cunhadão e o "convite" é aceito.
Cana pra dentro.
No primeiro ônibus, já vou cochilando.
No segundo vou em pé.
Sou o co-piloto no carro da terceira etapa da viagem.
Dois na frente e quatro atrás.
- Vai um no colo...
- Tomara que não role nenhuma blitz.
- Ah! O vidro é fumê...
Frango a passarinha e batata frita no colosso.
Sentamos atrás do gol.
Já me sentindo meio (completamente) leso... dou mais um gole no copão de cerveja.
(de onde foi que ele surgiu?)
Sofro coletivamente durante o primeiro tempo.
Durmo durante quase todo o segundo.
(nem senti passar o intervalo)
hehehe
Futebol, na boa, não é a minha praia.
Ainda mais assim, bebinho...
Nem lembro quando foi que a garrafinha de cachaça acabou...
Que sede!
- Vamos indo, né?
De volta a configuração original no carro...
O cunhadão me entrega "sem faltar nenhum pedaço".
Que bom que é chegar na minha casa.
Fim de domingo.
Já tô com saudade.
(que sono)
Penso no próximo fim de semana em família.
03.09.2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Cara à tapa
me.do
(ê), s. m.
1. Perturbação resultante da idéia de um perigo real ou aparente.
2. Apreensão.
3. Receio de ofender, de causar algum mal, de ser desagradável.
crí.ti.ca
s. f.
1. Arte de julgar as obras literárias ou artísticas.
2. Conjunto dos críticos.
3. Exame minucioso.
4. Julgamento hostil.
a.cei.ta.ção
s. f.
1. Ato ou efeito de aceitar; aceitamento.
2. Acolhimento por parte do público comprador.
3. Aplauso, aprovação, aquiescência.
4. Boa fama, consideração, crédito.
(...)
Temer a crítica é indício de não aceitar a si mesmo.
A partir de agora, dou minha cara a tapa.
(mas revido)
2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Boa noite
É assim, antes de dormir... sempre é...
Me forço a compilar as informações do dia,
a extrair uma idéia, uma conclusão válida,
algo que me reforce o crédito de que viver vale a pena.
Penso nisso até o sono me tomar.
Durma(o) bem.
Bons sonhos.
Até amanhã.
E...
Tenha(o) um bom dia - de novo - quando acordar.
2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Tentativa de Orkuticídio
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eu: não, ainda to entrando...
fulano diz: eh, ela chegou sozinha, mas eles foram embora juntos...
eu diz: pera, 1 min
fulano diz: todo mundo se ligou
fulano: nao deu pra nao perceber!
fulano diz: :-O
fulano diz: ja visse?
fulano: hein?
eu: se tu parar de falar, eu consigo ver!
fulano: =P
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Dudu: Ainda não, vamos? Tá passando em duas salas.
Dudu: Pois é, também gostei muito, viu? E hoje, que tal um cineminha?
Soninha:Pois é, a Luzia levou o gatinho novo dela também.
Gutierez: Obrigado a todos os que me desejaram parabens. Mas a festa é amanhã. Espero vcs hoje lá no "Nuda Sra." a paritr das 22h
Olavo: Oi, Bia. Te achei na comunidade do Sigur Ros. Você tem o Agaetis Bjryun em MP3?
Dudu: Olá, claro que pode! Dormiu bem? hehe
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Bia:estreou um na sexta, vc ja viu?
carlos:ah, muleke!
Igor Carvalho: Pois é, depois que tu saiu fiquei mais uma hora e depois fui embora tb.
Bia:Ei, moço, posso te adicionar? beijinhos pra você
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Bia: Tsc, tsc, tsc...
Laurinha: Gostou do presente?
Pedro Ivo: Eh, tás ficando velho!
write: Parabéns, cara! foi mal, mas não vai deu pra aparecer. Ficou super tarde e perdi a carona. Quer saber? Foi melhor não ter ido mesmo...
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Eu: Parabéns, cara! foi mal, mas não vai deu pra aparecer. Ficou super tarde e perdi a carona. Quer saber? Foi melhor não ter ido mesmo...
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Bia:estreou um na sexta, vc ja viu?
carlos:ah, muleke!
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Bia:Ei, moço, posso te adicionar? beijinhos pra você
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(porra, porra...)
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13.02.2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Centra(l)do
A tulipa do Bohemia Weiss é do caralho...
Que tesão!
O primeiro gole...
Pouco a pouco me reintegro a vida social... bem do meu jeito.
Hoje não tô a fim interagir.
A minha vida é minha, a minha vida é minha.
Outro gole... bebo sozinho.
Estranho como as pessoas estranham alguém que bebe só.
Graças a, quem quer que você acredite, hoje, ninguém perguntou com cara de espanto:
- Sozinho?!
- Pois é, né?!
- Que triste!
(sorriso amarelo)
- E é?!
(sim-pá-ti-co)
Foi tão natural que parecia que era um encontro marcado.
- Oi, tudo be...
- Oi, tud...
Beijinhos trocados, frases inacabadas, cada um pro seu canto.
(ela está mais bonita, gente boa...)
Encosto no balcão, alí é o meu canto.
Os quatro não, esperam uma mesa.
Acharam. Troco de banquinho e me sento no lugar da outra menina. No mesmo lugar da semana passada.
É bom ir criando essa familiaridade. O mesmo banco, o mesmo canto, o mesmo pedido num dia diferente.
Vou me sentindo em casa. Bar tem dessas coisas.
A garçonete me cumprimenta. Bom sinal.
Peço a danada da Weiss...
- Adivinha!?
Senti o mesmo, quando o outro garçom acertou meu pedido.
Mentira! Ele perguntou se era uma Malzebier... enfim, tinha sido a que pedi ao ir embora da outra vez também.
- Não, da outra...
(tá perdoado)
Sou "do tempo" que a diferença de uma cerveja pra outra era coisa de centavos, sabe?
De um e noventa pra dois e dez, de dois e oitenta pra três e vinte...
Vou me dar o luxo de tomar uma de cinco e setenta.
O rapaz que toma conta dos carros, vem pra comprar cigarros e se espanta com o tamanho do copo...
- É quase seis... - digo - Mas é bom porque você acaba bebendo menos. Justifico.
Ele ri, achando meio que absurdo.
Deve ter pensado:
(Pra quê bebê se não fô pra ficá bêbo?)
De volta ao primeiro gole.
Devo ser o único de sandálias havaianas no bar.
De pernas cruzadas olho para os pés.
Nesta noite, os pensamentos são outros.
São passatempos.
Quando um deles, distante (tão perto), me vem... sorrio e vôo com o olhar além da calçada.
Olho a hora no celular imune ao tempo que se passa ao meu redor e coço a barba.
- O tempo passa e eu nem sinto.
(não tem nem meia hora que eu cheguei)
E outro gole... volto a mim, alí.
- Parece uma sexta hoje, né? Todo bar tá cheio de gente!
Fala o PM que passa pra pegar o lanche.
- E o cafezinho?
Servem chopp numa xícara que ele vira de uma vez, elogiando:
- Café arretado! Massa o chopp do rapaz, ó?! Copão!
Conta uma ou outra vantagem, abrindo os braços e peitando o ar... se achando.
- Foi muita bronca ontem, o PCC querendo agir e tal, confusão não sei aonde...
Deixando a fala por terminar, como se desculpasse pela ausência no dia anterior.
(humpft... "grandes merda", como se tivesse feito falta...)
A cara da garçonete foi ótima!
Olho pra ele, imaginando uma brecha no coleta a prova de balas e...
"BANG!"
Volta pra viatura.
As pessoas chegando. Abraços, beijos estalados e eu me "reintegrando"... só observo.
Estico o braço e alcanço a Weiss.
(preciso reaprender a ler... )
Cada pessoa fala o seu idioma.
Os gestos, as caras e bocas, sorrisos dizem coisas diferentes de cada uma delas.
(preciso reaprender a ler a pessoas)
- Oi!
- Tudo bem?
- Tudo, to aqui tomando uma "cervejinha" pra depois ir dormir tranquilo...
- Bom! É isso aí...
- Opa! Joia?!
- Oi, quase não te reconheço!
- Tchau...
Mais um gole.
Volto a ser só eu no balcão de novo, comigo mesmo, centro das minhas desatenções.
A cerveja já vai chegando na cintura da tulipa.
A minha companhia vai se tornando, a cada instante, mais agradável.
Retomo o pensamento...
(meu idioma pouco vale agora, ninguém entende... até mesmo porque, permaneço calado)
Minhas metáforas estão gastas. Já tinham me dito isso ano passado, ao "pé da orelha" branca.
Na verdade um tapa que preferí tornar público.
- Poesia moderna... Paul Celan é o cacete!
Faço um retrato de tudo que está ao meu alcance.
Os carros, o bar do outro lado da ruas, as mesas amarelas, a menina de rua chapada andando aos tropeços e pedindo um cigarro pro flanelinha.
No prédio da frente uma placa de aluga-se.
- É um saco ter hora pra tomar banho!
Anoto o telefone esperançoso de que naquele condomínio não tenha racionamento de água.
- Amanhã eu ligo.
As janelas protegidas por cortinas, papeis colados nos vidros numa tentativa de preservação da privacidade.
(domingo aqui, não tem jeito. o barulho do parque 13 de maio é infernal)
Volto as atenções para o bar.
Já colocaram mesas na calçada.
Uma colega de faculdade, passa, finge que não me vê. Vai embora...
- Mais uma?
Balanço a cabeça e a garçonte ri.
Quebro minha promessa de tomar só uma.
A cerveja toma conta de toda a tulipa.
Ela brinca fingindo espremer a garrafa.
(segunda cerveja.)
De volta ao primeiro gole.
Olho ao meu redor.
- Teu nome mesmo?
Respondo.
(esse aqui no meio do banco, sou eu?)
E anota "mais uma" na comanda.
17.08.2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Leão de chácara
Alícia, alicia a noite dançando diante do espelho.
Maria, amaria a si mesma se conhecesse o amor.
Carla, se cala por medo de permanecer na solidão.
Valéria, valeria mais se topasse fazer de tudo.
Cristina, abaixa a crista pra não levar mais um esporro.
e eu, da porta, só olhando...
não tenho dinheiro pra dormir com nenhuma delas.
16.08.2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Amarelo, laranja, azul e violeta
ele se escondeu,
achando que eu não estava percebendo.
foram as nuvens que me "contaram"
o que estava acontecendo.
06.08.2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Impor do sol
e assim, segue...
um dia depois do outro...
e do outro...
e o outro...
depois do um outro, outro um.
o pôr do sol de hoje, vai ter que esperar por amanhã.
2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
No oneway
... sim, o amor recicla-se.
Transforma-se.
É sentimento mutante assim como as nossas necessidades... mas não deixa jamais de ser amor.
Romântico, fraterno, p(m)aternal... sempre amor, independente de como se sinta.
Há fatos acontecimentos, pessoas (e por que não dizer amores) que são inclassificáveis. Todos tem a sua singularidade, mas apenas alguns não fogem da lembrança, não se misturam, nem se perdem com o vento.
Não se perdem, porque são puros, desprovidos de vícios, de egoísmos. Libertos de toda espécie de cacoetes e de tudo que deriva dos "falsos pudores"... Do medo e da ilusão de que na vida se "precisa ter" para poder estar bem.
São inclassificáveis, porque são simplesmente vi-vi-dos, sem medidas nem questionamentos, dúvidas ou receios.
Inclassificáveis, porque são surpreendentes, inusitados, inesperados.
Inclassificáveis, pois tudo que tende ou deriva de dor, sofrimento, tristeza, angústia, é que é caso comum...
é o que se perde.
05.2000
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Prazer em conhecer...
...existem também muitos outros mundos em nossas vidas, em nossas cabeças, em nossas idéias...alguns tão nossos, tão malucos e tão fantásticos em sua originalidade que chegam a despertar fascínio nas pessoas que vivem a parte deles.
São por esses mundos que as pessoas se encontram, se envolvem e mergulham umas nas outras, em busca do inimaginável, do inesperado, do fantástico, do surreal... e assim se constroem várias outras histórias, outros mundos, outras viagens.
A gente nunca sabe bem o que vai encontrar, ainda mais quando nem se sabe ao certo o que procurar... se é que estamos conscientes desta procura. Mas... e quando encontramos o que a partir de agora se tornou indispensável? Quem nasceu primeiro, o essencial ou a essencialidade?
Impossível distinguir...
É tudo muito maluco, não é?
Mas é tudo assim mesmo...
2000
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Saído do exílio
Abaixo a censura e a ditadura...
A partir de hoje,
nenhum sentimento será castigado!
As palavras do passado,
agora, fazem parte apenas de uma história mal contada.
Uma sombra na lembrança de minha tristeza ressacada.
Que já não afoga ninguém,
que já não mete medo,
nem nada.
30.07.2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Ressaca imoral
Não resistiu e tascou-lhe um beijo à força.
Queria desmontá-la.
Não beijou por saudade, nem por tesão ou amor.
Porra nehuma! Beijou por ódio, por vingança.
Com bafo de cerveja. Só por sacanagem.
Puxou-a, segurando pelos cabelos, esfregando os lábios nos dela.
Só não foi um estupro porque ela cedeu.
Devia ter-lhe arrancado a língua numa mordida e cuspido no chão.
Ela entendeu o recado e saiu correndo.
- Puta!
Gargalhou daquela fuga aos tropeços, mandando à merda os olhares reprovadores.
Riu-se só, baixinho, durante alguns minutos...
Bebeu mais um gole? Deve ter bebido, mas não lembra.
Galhofou divertindo-se com a lembrança daqueles olhos aterrorizados, da frase dita em voz trêmula, daquele vulto patético fugindo.
Olhou pro garçon e se despede num sorriso em silêncio:
- À merda!
Pegou carona prum outro bar e no caminho, o celular toca.
- É a putinha de merda...
Ele concordou em ir ao seu encontro.
Desligou e deu uma nova gargalhada.
- Tá fodida!
Se encontraram e conversaram durante horas.
Destilavam raiva e arrependimento, querendo purgar toda a frustração que sentiam.
Como ele quis ter arrebentado com ela... agora já era tarde.
Choraram e continuaram aquela conversa sem fim, madrugada a
dentro. Um mesmo assunto que não acabava nunca. Nem mesmo depois de quase 1km andando.
Um xingamento a cada lambida, como se pudesse envenená-la com a saliva.
Ria de satisfação e se odiava por isso. Não se excitava, mas sentia um prazer imenso com aquilo. Beijava-a numa tentativa de denegrir, diminuir, humilhar.
Empurrou-a contra parede, enfiou a mão entre as pernas e puxou-lhe a calcinha.
Que puta! Já estava toda molhada.
Virou-a de costas.
- Esse vestido é o mesmo de quando a gente se comeu pela primeira vez.
Fez o comentário ardiloso, irônico, fingindo saudosismo.
Ele também usava negro. Um humor negro que era quase um luto por um amor que morreu. Fúnebre.
Uma tapa na bunda.
- Se mostra! Vai, se mostra!
- Aqui não!
Ele ria, cínico, sádico. E ela, anestesiada, parecia não se incomodar. Devia ter-lhe batido na cara, mas não lhe ocorreu isso. Segurou-a pelo queixo apertando-lhe as bochechas enquanto falava entre os dentes.
- Se mostra! Vai, se mostra!
- Alguém pode ver, não... o porteiro...
- E se ver... ?
Assutava-se com cada ruído, mas se exibia, subserviente, abrindo as pernas com olhar de rapariga. Ele provocando, se esfregava ensaiando uma foda enquanto ela se contorcia. Fazia de conta que não queria.
- Se mostra!
E com a cara na parede e o vestido sob as ancas, pediu pra subir.
- Não!
- !?
Implorou.
- Vai, eu quero na tua cama!
- Não ! - E sentou-se, olhando a sua bunda.
Ela virou e deitou em seu colo.
Humpft! Como se ele fosse deixar convencer com uma chupada.
Puxou- a pelos cabelos e pensou que aquela merdinha não o merecia.
Se sentiu sujo. Sentiu ódio de si mesmo.
- Na tua cama!?
- De jeito nenhum... alías, vai embora.
- No teu quarto!?
- Minha cama e meu quarto não... Não é mais qualquer uma que deita...
Riu da cara dela.
- Qualquer uma, ou eu?
- Qualquer uma, você. Vai embora, vai.
Sentiu que podia humilhar mais um pouco e com o consentimento dela!
- Pede de novo!
- Vai, me come...
Disse não e gargalhou.
Representavam tão bem aqueles papeis de putos. Quase se divertiam.
Pegou o celular e chamou o taxi. A moça o reconheceu.
- Está a caminho, Sr.
A hora era quase a mesma de meses atrás, quando ele acordava para o trabalho e ela saia pra casa cambaleando de sono... isso acontecia pelo menos umas três vezes por semana. Hoje, nem sabia se ela tinha dinheiro...
- Ah! Foda-se!
Ela ainda pediu para que a acompanhasse... ele desceu, mas ele não passou do portão. Ela se despediu e o taxi seguiu.
- Foi embora. Quem dera para todo o sempre.
Minutos mais tarde, ligou para dizer que tinha chegado em casa e estava bem.
- Tá, tchau... desligou com desdém.
- Que estúpida!
Riu, achando engraçado mais uma vez e deitou.
A cama começou a girar.
Porra! ainda estava bêbado.
26.09.2005
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Alvorecer em 18 de julho
...
o vento friozinho no rosto, e eu esperando...
as nuvens no horizonte, com o contorno vermelho alaranjado, pouco a pouco se derretendo...
se desmanchando como se fossem leite em pó num copo de água quente.
E a bola de fogo laranja subindo, mudava de cor, já era quase branca incandescente.
A ciência me dizia que aquela beleza toda, no dia de hoje, era apenas uma feliz coincidência.
A poesia gritava, insistia que era por minha causa!
fixei os olhos o quanto pude...
sorri...
e voltei pra casa.
18.07.2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Curtinha
Nem tente prolongar a vida de uma poesia.
Algumas são como borboletas...
Lindas, mas não duram mais que quinze dias!
2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Amnésia
A minha memória é fogo,
as vezes me lembra o placar,
sacana, me esconde o jogo.
2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
01:39h
Esperar o sono chegar não vai ser problema...
É muito mais fácil dormir quando se está bêbado.
A 12 h atrás, eu não ainda nao tinha levado metade dos esporros que contabilizei as 18h.
Mas acabou, já é quarta-feira... dia de terapia.
O que escrevo não tem conexão com que eu sinto, pois ainda estou comedido.
Mais um gole.
Um só?!
Quem dera...
...
Não é só de agora, a muito tempo tenho reprimido o desejo de voar.
A lua me é cumplice nas noites em que está cheia, nelas entonteço olhando para o alto...
Caio na rede num mergulho de costas. Me balanço... bato asas.
E agora, em que horário manifestarei minha preguiça amanhã?
Entre as dez e o meio dia, na hora do almoço (ah, aí já é desperdício ), ou no fim da tarde?
Que tal agora?
Tarde demais...
Mas o sono não vem. Mas... a vontade da preguiça permanece. Mas... ela insiste em se manifestar. Mas... ela Palpita.
E agora, o que é que eu faço?
...
Vai dormir que teu mal e sono.
02:05h?
Nesta hora não posso contar com a preguiça.
Ela já está descansando agora... e amanhã o dia é de branco.
Até daqui a pouco...
2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Oferenda
Te ofereço uma bossa
eletrônica,
nem mais, nem menos...
Um melodrama
rítmico-hipnótico.
Esquizofrênico, patético,
caótico...
Ofereço-te uma idéia
biônica,
nem mais, nem menos...
Um pensamento
métrico-neurótico.
Cênico, hipotético,
protótipo...
Ofereço-te uma razão
hidropônica,
nem mais, nem menos...
Um sentimento
ético-simbiótico.
Transgênico, protéico,
macrobiótico...
Ofereço-te uma visão
randômica,
nem mais, nem menos...
Um futuro
profético-agnóstico.
Ecumênico, caquético,
catastrófico...
Ofereço-te uma noção
catatônica,
nem mais, nem menos...
Um exemplo
poético-filosófico.
Higiênico, estético,
claustrofóbico...
2001
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Intolerante
Por que tirar-me do sério?
Ainda que fosse engraçado!
A diversão está em espalhar combustível
e sabotar a felicidade puxando os fios da trama
de um passado morto, sem saudade?
Está em desejar os louros de uma vitória
em monólogo, solitária, sem adversário?
Em curvar-se sobre o ventre, retrocedendo ao óvulo,
centro das atenções de gametas ensandecidos?
Está em expor a lágrima clemente por um olhar vazio,
em primeira pessoa?
Não...
Definitivamente não tenho paciência para chiliques
a esta hora da manhã.
07.03.2006
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Soparia
Acordou num sofá vermelho.
Quase cego, quase surdo, quase mudo.
Tinha areia nos olhos, um zumbido terrivel nos ouvidos e nada, nada que pudesse falar sobre o que tinha acontecido.
- Ô amigo, o bar tá fechando.
Ficou calado. Pôs-se sentado.
Sentiu areia por todo corpo. Frações de segundos intermináveis. Uma micro eternidade sem respostas.
Passou a mão na cabeça, limpando os cabelos... mais areia.
Tentava abrir os olhos e a claridade entrava pelas pálpebras, ofuscando, misturando-se aos grãos que perfuravam, como agulhas bem finas.
A visão embassada e um badalo na cabeça.
- Porra, que horas são? - Rouco, com a voz em mono.
- Seis e meia... - Passando um pano, limpando o chão.
Fez as contas. Estava fora de casa a exatas vinte e três horas e trinta minutos, sem dar notícias.
Cotovelos nos joelhos, mãos na nuca. Quinze segundos para uma meia dúzia de lembranças...
- Caralho! O nome dela? O nome dela...
- Como é?
- Onde eu pego um taxi?
- Aqui na frente tem, logo alí, na saída.
Se deixou guiar pela claridade, tateando as cadeiras em cima das mesas. Passos curtos, ainda tonto e com medo de tropeçar...
Pronto, só faltava cair agora.
- O nome dela... - Repetiu, tateando os bolsos procurando dinheiro.
Encontrou uma bolinha amassada de cédulas no da frente e carteira vazia no de trás... cheia de areia.
Quanto ainda tinha? Dava pra ver? Dava pro taxi?
- Preciso lavar o rosto.
Sensação de "déjà vu" do caralho...
Piloto automático, driblou as mesas, cadeiras, pessoas em direção ao banheiro.
Escuro... Achou a pia, enche a concha que fez com as mãos. Mergulhou. Quase se afoga. Levantou da pia e saiu...
Cara molhada, cabeça girando, pensou em "Dazed and Confused" mas digitou "You Shook Me".
Rodou mais um pouco e escolheu a outra...
Cena refeita, lembrou de ter sido puxado, depois empurrado na parede, no lado da radiola de fichas.
Uma língua louca, insistindo em brigar com a sua, quase dormente.
Seus lábios doeram por terem sido sugados com tanta força.
Um par de pernas se metendo entre as suas.
Precisava inverter o jogo, sair dalí e mostrar quem mandava.
Quem mandava? No que?
Tava entregue.
A ficha caiu.
"You know you shook me. You shook me all night long...
- Teu nome? Teu no...
You shook me so hard baby. Baby, baby, please come home. "
Mais um beijo absurdo, estúpido, embriagante.
Bebiam juntos no mesmo gargalo. Bebiam no queixo e pescoço um do outro...
Insistiu.
- Teu nome?
Um sorriso de canto de boca... umedeceu os lábios e respirou ofegante se aproximando da sua orelha...
Cochichou como se fosse um segredo.
Se afastou passando a línha em seu rosto.
Piscou o olho e o puxou pelo braço.
Passaram a cortina de contas e na calçada, já quase na rua, a segunda caiu...
"You need coolin', baby, I'm not foolin',
I'm gonna send you back to schoolin'..."
- A gente vai pra onde?
- Alí...
"...I'm gonna give you my love..."
Caminharam até a praia, tropeçando aos beijos, encostando nos carros, disparando alarmes.
"...I'm gonna give you my love." Bem baixinho...
Num banco de areia, ela se jogou por cima.
Nos minutos, faltavam segundos. Como se desse pequenos saltos pra frente no tempo. Como se visse um slide show.
Num momento, de blusa aberta. Noutro, nua em pelo.
Faltavam cenas. Chegou a apagar algumas vezes.
Já não sabia a quanto tempo estavam por alí.
Ela se divertia pela segunda vez quando, exausto, fingiu o orgasmo.
Num momento, carinhosa, deitou em seu peito. Beijaram-se mais uma vez, desta vez meio aguados, quase que por obrigação.
Noutro, vestida, chamava pra levantar.
Ele ficou de joelhos e brincou, colocando a cabeça embaixo da saia. Beijava-lhe as coxas
Riram...
Ela balançava a saia, fingindo toureá-lo.
Abaixou a cabeça e apagou mais uma vez. Acordou num sofá vermelho.
- Tá livre?
- Tá.
Entrou pela porta de trás.
- Pra onde amigo?
- Putz...
Lembrou que já eram quase vinte e quatro horas fora de casa.
Lembrou que também era vermelha, a saia dela...
Só não lembrava do nome.
14.05.2005
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Alto do Pascoal
Subiu perguntando o itinerário, já no primeiro degrau.
Tinha perdido a hora.
Um senhor que subiu à sua frente confirmou. O motorista só balançou a cabeça, sem nem olhar pra ele. Rídículo com os óculos "Reibão" enorme.
Às vezes acontecia assim. Cismava com a cara de um e fodeu!
- Filho de rapariga!
A cobradora quase ouviu.
Disfarçou, fingindo reconhecer alguém lá no fundo do ônibus lotado.
- Dois e cinquenta. A senhora me dá um real de troco.
Devolveu quatro de vinte e cinco. Maiores e mais pesadas.
Bufou, quase sem paciência. Essa carteira é uma merda pra moeda, pensou.
Puxou o ziper pra guardar o troco. Soltou as moedas.
Uma passou direto. Viu os vinte e cinco cair bem nos pés do velho, o mesmo que subiu na sua frente.
- Que fresco...
Vagou um lugar na cadeira ao lado bem no momento que cruzava a roleta e o velhote se enfiou na frente.
- ... pegou meu lugar!
O velho sorriu, banguelo.
- Achou?!
- Esquece.
Levantou e seguiu em direção ao meio do ônibus, puto da vida. Lá, parecia menos apertado.
Puxou a pasta pra frente e se acomodou do lado de uma menina.
- Porra, ela nem pra pedir pra segurar a pasta! Pesada pra caralho...
A alça incomodava no ombro, mas a figura parecia "não estar sentindo nada".
Mais duas paradas e ela levantou.
- Massa! - Se jogou
- Vai-te embora cururu. Fraquinha de feição que era, coitada!
Sentou sem a aquela frescura que as velhas tem de abanar o lugar pra não pegar doença.
Mas que fundo quente ela tinha!
E olhou pra trás, por cima do ombro, como se estivesse esquecido alguma coisa.
- É, bundinha massa!
Sorriu.
Pronto, começou. Tinha destas coisas também.
Se divertia a maior parte do caminho, adivinhando como deviam ser aquelas pessoas fodendo.
Só pela cara, atribuía notas. Daí seguia fantasiando com decotes, peitões e peitinhos furando as blusas, as calças apertadas e os vestidos soltinhos que encontrava esticando o pescoço.
Olhava pra incomodar mesmo. Só tirava a vista se olhassem de volta com cara feia. Fora isso, escroto, secava mesmo, tirando a roupa com os olhos.
- Ganhei o dia, que gracinha!
Se imaginou beijaando aquela boquinha quase que istantâneamente. Fininha, delicada, de lábios quase inexistentes.
- Será que ela beija com a boca dura?
Gostava mesmo era de beijo com a boca mole. De chupar os lábios como se fossem chicletes. Sentindo e eles respondendo, indo e vindo.
Beijo de boca dura é uma merda, parece um beijo medroso, contido. Bom mesmo é quando a boca se entrega.
Ela tinha que beijar com a boca mole.
Pediu pra segurar os livros e ela agradeceu quase muda.
Ajeitou em cima da pasta, aproveitando pra fazer uma pressãozinha em cima do colo.
Mudou o semblante. Desarqueou a sobrancelha e olhou pra cima franzindo a testa. Jurava que era um santo barroco.
Se benzeu também, o dissimulado. Só fazia mesmo, quando via alguém fazendo antes. Nunca lembrava sozinho.
Ela continuava hipnotizada com os postes passando do lado de fora.
Segurou a fivela nos lábios e puxou o cabelo pra trás das orelhas, exibindo o piercing e a tatuagem.
O suvaquinho lisinho, uma delícia, dava margem pra pensar em outros cantinhos depilados e cheirosos.
O cabelo ainda estava molhado, tinha acabado de tomar banho.
Prendeu a franja pro lado direito, se olhando no reflexo da janela.
- Tá linda! (...)
- Obrigada!
Pegou os livros, puxou a cordinha e desceu correndo aproveitando a porta aberta num sinal fechado.
- Meu mundo caiu, e agora?
Agora, mais ninguém.
Agora só faltava que o velho filho da puta fosse o último a descer também.
Olhou pro chão e achou os vinte e cinco no pé do banco, à esquerda do velho.
- É, nem tudo está perdido.
27.09.2005
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Sub(a)traindo o tédio
Não há muito o que possa ser feito.
Não há nada a fazer senão deixar tudo como está, digo, senão deixar o tempo resolver tudo. Não há do quê, nem porque me arrepender, pois a única coisa que poderá mudar, é o julgamento dos outros, perante mim. A tristeza e as conseqüências continuam sendo minhas.
Não há muito o que possa ser feito.
Não há nada a fazer senão esperar o sono e a morte chegar, digo, senão deixar o tempo resolver tudo. Não há de quê, nem porque me esconder, pois a única coisa que poderá mudar, é a visão de mim que têm os outros. Eu sou o único que continuará a me enxergar e a saber onde estou.
Não há muito o que possa ser feito.
Estou cansado de esperar uma salvação arrebatadora, uma brisa que me entre pela janela e sopre de mim toda a angústia. Neste momento sou eu quem sopra do quarto para fora, um bafo quente, cheio de fumaça.
Não há nada o que possa ser feito.
Cada baforada, é uma a menos até o fumo queimar por completo.
Cada pestanejada, é uma a menos até que meus olhos estejam completamente fechados.
Cada dia, cada noite, é um dia e uma noite "amenos".
22.09.05
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Acre
Estou seco.
Sou terra queimada, rachada,
chão duro de barro batido.
Sou quente, faísca afiada,
sertão, "escarrado e cuspido".
Para as mais aventureiras
que me quiserem cruzar,
alerto, mando um aviso:
Ainda há muito o que andar!
Pois mesmo que me espremam,
nenhuma gota escorrerá.
Sou areia, deserta paisagem
onde sombra de vida não há.
06.05.2005
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
A última folha
Tantas vezes troque a água,
outras tantas repeti,
para evitar que ela murchasse
e ainda assim, não consegui.
uma a uma, foram-se as pétalas,
bem-me-quer e mal-me-quer...
sem ser preciso tocá-las,
sem dar um sopro sequer.
dei-lhe luz e claridade
num vaso próximo à janela
e foi secando pouco a pouco,
suas folhas ficaram amarelas.
ainda choro a minha dor
por não suportar a verdade:
se assim aceitou seu destido,
o fez por própria vontade.
o quanto amei esta flor
a todos declaro sem medo.
o perfume, deixou saudade
os espinhos, um furo no dedo.
05.05.2005
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Il primo è vero!
me sinto uma folha caída prematuramente,
ainda na primavera, verde perambulando,
me deixando levar pelo vento...
me sinto secando antes do tempo,
forçado a amadurecer (ou envelhecer)
fora do galho.
24.02.2005
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Vontade 1
O que é vontade?
é o impulso que nos move
rumo ao absurdo,
que invoca o desejo
e provoca a realidade.
que é angústia diante
da impossibilidade
e se transforma em êxtase
quando tem capacidade.
que é o combustível
da impulsividade,
inimiga da racionalidade.
23.03.2002
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Vestindo a roupa saí
Vestindo a roupa saí
Desci as escadas,
pernas apressadas,
o portão abri...
Subi pela rua,
ainda de costas nuas,
na calçada cuspi...
Apertei o passo,
no meu descompasso,
tropecei, caí...
me ergui num salto,
e de sobressalto,
me afastei dali...
Esgueirei-me nos cantos,
por todos, por tantos,
quantos me espremi...
Andei mais um pouco,
e teu grito rouco,
outra vez ouvi...
Sem qualquer virtude,
mais rápido que pude,
me apressei, corri...
E olhei pros lados,
com olhos cansados,
loucos pra dormir...
Quis sonhar de novo,
fui o meu estorvo,
e não consegui...
Por sentir-te perto,
que me fiz incerto,
do que não senti...
Não voltei atrás,
fui buscar a paz,
que me prometi...
Refiz meu caminho,
e agora sozinho,
me obrigo a seguir...
E nem sei se errei,
os erros é que deixei,
de admitir...
Vou seguir comigo,
sou meu próprio abrigo,
volto a me despir...
2000
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Provocação
provocação,
é o teu dedo em riste
à minha face.
ditador...
e, por mais que me ameace,
não me impede que o conquiste
numa dentada sem dor.
provocação,
é o teu nariz torcido
e arrebitado,
negando-me atenção.
petulante o desgraçado!
mas não me faz arrependido
de me ter em tuas mãos.
provocação,
é o teu vestido
e esse decote,
me enchendo de desejo.
esperando por meu bote.
ah... este seio escondido
será o alvo do meu beijo.
26.03.2002
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
(des)astro
Meu peito se comprime enquanto me espalho, avanço em todas as direções me distanciando do meu eixo no espaço.
É mais seguro ser satélite que cometa, mais gratificante ser sol que planeta...
17.12.2004
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Ícaro
apático, patético, profético...
proparoxítono apaixonado!
sou ícaro depois de quedas...
um mito, sem lógica e sem medo de voar.
o sol é o limite que persigo sem pena
a fim de conquistar meu espaço.
"meu coração está em órbita"
(parafraseando o nosso amor)
vôo aonde ele nos levar.
30.11.2004
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Estou lua nova
Discreto, introspectivo... implosivo.
Provocações externas não me atingem.
Estou atento aos embates travados comigo mesmo.
Estou sendo.
Nem passado, nem presente... estou gerúndio.
Descobrindo o meu caminho, reconhecendo os meus espaços, ampliando/delimitando os meus limites.
Vivendo.
2004
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
...cansado
cansado...
casnado demais...
casnado demias praa pensar...
casnado demias praa pesnar em qualquer coisa...
casnado demias praa pesnar me qaulqure cosia que não seja cansaço...
meus olhos...
mesu olohs pesados...
mesu olohs peasdos se fecham...
mesu olohs peasdos se fehcam irresolutos...
mesu olohs peasdos se fehcam irersolutso mas resisto...
estou cansado...
etsou casnado demais...
2004
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Perdido
Voltar no tempo,
mesmo sem querer,
mesmo por acidente,
é muito bom para valorizar o presente...
A necessidade de completá-la é que me deixa vazio.
Por mais que eu saiba que não tenho como atender a todos o seus desejos (e nem devo), acabo me culpando e me sentindo mal com suas cobranças.
Ela sabe que me exige demais (talvez assuma esse excesso tentando não me desanimar), eu concordo, brigo, e não relevo.
Não consigo....
Quero ser tudo para ela, mas sem a pretenção de ser o maior, melhor e mais importante...
Quero que ela me ame com tudo e por tudo que eu sou, e que o meu modo de amá-la lhe seja bastante e a satisfaça.
Queria muito que ela amasse o meu jeito de amá-la, que entendesse.
Queria que minhas atitudes fossem suficientes, mas sempre falta algo. Sempre alguma coisa não é feita de forma correta. Sempre uma crítica. Sempre uma represália. Sempre uma desconfiança. Sempre que eu não estou com ela...
Como seu eu não fosse dono do meu nariz, como se eu não fosse um indivíduo, individual, único, particular a mim mesmo.
Como se as minhas escolhas não pudessem ser boas para mim, só para mim.
Como se eu não pudesse ter vida sem ela, nem escolher o que é bom para esta vida.
Como se eu devesse amá-la acima de todas as coisas, e tivesse que amá-la cada vez mais, e ainda mais, e mais...
Como se eu não tivesse mais direito a ser eu sem ela.
Ela me quer em absoluto e me colocar numa redoma, para atender somente as suas necessidades.
... e eu me contamino.
(Estou curado, sei onde meus pés estão...)
2004
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
A menina na janela
avisto as janelas de tua'lma
e, atraído pelo pela órbita dos teus olhos,
deixo-me entrar.
abertas também, minhas janelas,
convido-te a um passeio
e te peço para ficar.
entra, te acomoda,
sai se for tua vontade
e volta se assim desejar.
tens trânsito livre
em meus cômodos,
do quarto à sala de jantar.
abra-me as gavetas do armário,
as portas da dispensa,
pega o que quiseres levar,
pois sinto-me em casa também.
corro em teu jardim, rodopio.
alegre quero brincar.
na rede do teu quintal,
deito-me tal qual criança
em pêndulo a me balançar.
e olhando-te na água de meus espelhos
vejo nos teus meu reflexo
encantado com teu olhar.
14.09.2004
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Sobe...?
Onde fui parar o amor?
Descobri-o estacionado,
Com os braços cruzados,
num elevador.
Olhando a porta se abrir,
indeciso sem querer descer,
nem saber subir...
esperando "o não sei o quê",
talvez, que o tempo pudesse dizer
a que destino seguir.
Havia em si um cansaço,
de dividir seu espaço,
sem puder distinguir:
Quem estava ali a passeio,
a que motivo veio,
e aonde queria ir...
Nisso ele ia subindo... dez vezes...
descia... sem deixar de observar
o tanto que ele perdia
por não saber onde saltar...
Talvez esperasse um chamado,
de um andar ainda não terminado,
ou que se fosse construir?
Permanecia calado, de lábios
cerrados...
como se, já acostumado,
pudesse um beijo cuspir.
E aí, subir para descer novamente,
sem reclamar, quase demente...
e eu o tentando a sair...
foi tanto o tempo investido,
que dei-me então por vencido,
quando pude reparar,
que tinha até esquecido
que eu havia também,
tantas vezes subido e descido
enquanto estava por lá...
14.11.2000
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Pérola
Encontrei esta "pérola" dentre tantas outras interminadas...
- Cara, essa mulher não combina contigo...
A frase veio como uma bigorna de desenho animado direto na cabeça, por pouco não vi estrelas.
- Como é? Não combina? Como assim?
- Sei lá, vocês são muito diferentes. Ela muito certinha, metódica, você é é cheio dos "ses" e "porquês".
Ela é cheia dos objetivos e metas, você é desorganizado, meio porra louca, "deixa a vida me levar".
- De onde você tirou isso?
- Ah, você vive me falando das diferenças entre vocês...
- Não estou falando disso. Diferentes sim, tudo bem, mas quero saber de onde você tirou essa de combinar!?
Me deixa te fazer uma pergunta. Quais das meninas com quem você me viu, você acha que combinava comigo?
- Hum... pra falar a verdade...
- Isso mesmo, meu amigo, n-e-n-h-u-m-a !!! Sabe por que? Porque gente é diferente e o que combina é roupa!
Eu mesmo demorei um monte de tempo pra perceber isso.
Esse negócio de encontrar o outro par do chinelo, é conto da carochinha!
A gente precisa é aprender a andar com uma havaiana num pé e um salto 15 no outro...
(...)
Não sei bem o motivo que me impediu de continuar, nem o que ia sair daí...
Só sei que hoje, eu tô com uma puta dor na coluna!
2004
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Sobrevivente
o que passou, passou.
é um ponto além da linha do horizonte:
cardeal, bucólico, referencial.
tento me desvencilhar do passado,
sem querer desampará-lo.
guardo um olhar em sua direção.
o que passou, ficou.
é um rasgo aberto em linha reta:
dor, melancolia, saudade.
tento seguir adiante,
mas tanta luz ofusca-me os olhos.
os óculos escuros me protegem.
o que passou, não importa.
em que nos tornamos, é o que interessa:
cegos, surdos e mudos.
tento voltar a ser criança,
reaprender a andar e falar.
mas agora é tarde, já cresci.
06.07.2004
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Nosso tempo (perdido)
quanto tempo cabe num segundo?
o bastante para olhar no teu olhar
e me ver lá no fundo...
disfarçar, me aproximar acanhado e irresoluto.
e a partir de então, sendo dois,
seremos nós um minuto.
08.03.2004
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Pesadelo
O menino voltou.
O rapazinho crescido, só tem tamanho...
Oh! coitado! Mateiga derretida.
Ele voltou.
Voltou a choramingar
lamentando as escolhas mal feitas,
aquelas, que não tem volta.
Voltou, querendo o seu lugar,
querendo colo, reclamando atenção.
Voltou, com seus braços compridos,
sentado no chão,
abraçado às pernas finas.
Voltou a escrever dissabores,
seus medos.
Voltou com seu olhar vago e triste.
Voltou.
Porque não quer separar-se de mim,
não quer que eu cresça.
Voltou para me dizer que nunca,
em momento algum,
deixamos de ser um o outro.
... e eu que pensei que ele
estava dormido, que tinha ido...
Mas ele voltou "assim"!
Espero que não fique por muito tempo.
Espero que vá embora logo.
08.01.2004
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Um post "póstumo"...
Passa da meia noite.
Já é dia cinco de janeiro de dois mil e quatro.
O ano começa agora para mim.
A poeira baixou e tudo volta ao normal. Ela agora já está em casa.
Foi o período em que estivemos juntos por mais tempo nestes dez meses. E , confesso, foram doze dias difíceis.
Difíceis, porque foi quando tivemos nossas discussões mais duras.
Difíceis, porque estas discussões aconteceram por motivos tolos.
Difíceis, porque estas discussões representam a materialização das nossas diferenças.
Difíceis, porque estivemos um pouco mais próximos do que é dividir nossas vidas um com o outro. E isso significa compreender, ceder, ser tolerante, respeitar, colocar-se no lugar do outro e ao mesmo tempo ser autêntico, impor limites e delimitar espaço, manter-se indivíduo e peservar privacidade e liberdade.
Como é difícil!
Agora começamos a viver juntos de verdade, mesmo estando separados.
Antes quando estávamos juntos, a distância talvez fosse maior.
05.01.2004
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Sexta-feira
Naquela manhã sentiu-se diferente, estranho... e ao abrir os olhos viu a sua cama vazia... sob um ângulo diferente... distante... depois de alguns segundos constatou que a cama continuava no mesmo lugar... mas ele, estava no teto!
Foi então quando percebeu que flutuava em seu quarto.
Pairava por sobre a cama e os lençois escorriam ainda presos em suas pernas.
Havia morrido? Não, bobagem... de jeito nenhum! Tirando a surrealidade da situação, nunca havia despertado sentindo-se tão vivo.
Estava sim... mais leve! Como se durante a noite tivesse aspirado todo o ar de seu quarto. Não, de toda a casa, do prédio... de todo o mundo! Talvez por isso sentisse uma pressão enorme no peito.
Sentia-se inflado, cheio de um ar, cheio de vida.
Tinha ido dormir cansado, quase despencou, uma pedra. Uma viagem única, profunda, com sonhos repletos de flashes do dia anterior.
... acordou naquele estado!
Sentia-se leve.
Experimentou tocar a parede com o dedão e empurrar de leve.
Podia mover-se e, apesar de não ser um quarto espaçoso, nadou de parede à parede e em todas as direções. Dava razantes pelo chão e mergulhava em direção aos sapatos, às roupas jogadas e de tão perto que chegava, pôde enchergar o parafuso dos óculos que perdeu dois dias antes.
Então, balançando os braços de baixo para cima, num movimento típico de desenhos animados, pôs-se de pé.
Calçou os chinelos.
Estalou a coluna.
Passou as mãos nos cabelos e teve a certeza:
Estava apaixonado.
07.02.03
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Perfeição
Não sabia o que era perfeição, mas a procurava onde pudesse existir.
Nos sorrisos, nos lábios.
No bom dia, na boa noite.
Nas paradas de ônibus, nas salas de espera.
Na ida e na volta para casa.
Umas vezes sorria, cumprimentava, fazia de conta que ia e vinha por acaso. E ia e vinha... ao acaso.
Noutras fingia um olhar distraído para o lado, na tentativa de alcançá-la num destes desconfortáveis e fortúitos momentos, onde se disfarça e desvia o olhar, logo em seguida ao flagra.
Ensaiava este movimento inúmeras vezes, sabia da precisão exigida pela simulação. Por isso mesmo, para não correr o risco de deixá-la escapar, virava o rosto com um sorriso já engatilhado... que morria antes mesmo que o giro completasse os 90º! Não a enxergava mais a sua frente.
Queria encontrá-la mas não sabia com que parecia. Queria ver e saber. Simplesmente identificá-la. Chegar e encontrar.
Como num saguão de aeroporto, onde ela, portando uma plaqueta em letras garrafais onde se pudesse ler "EI, VOCÊ!", estivesse a sua espera.
Não desistia.
Era assim que planejava o seu encontro.
Estrategicamente casual.
Perfeito.
27.09.02
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Nana Nenen
Houve um dia em que inquietude era o meu conforto.
Então agarrava-me a ela para sentir-me vivo, fazendo dela a razão de minha existência.
Não sentia-me só, pois a tinha como companhia. Mostrava-me os caminhos que desviavam da mediocridade. Alimentando minha dor e angústia, mantinha-me de olhos abertos, com a mente e língua afiadas.
Porém, não permitia que pudesse expelir as idéias e verdades que me revelava, pois haveriam sempre outras, e outras que viriam superar as anteriores e torná-las verdadeiras mentiras. A já chamadas verdades equivocadas.
(...)
Numa noite adormeci (como em vezes anteriores) cercado pelas minhas inquietudes e despertei sozinho depois de tantas outras noites mal dormidas. Acordei antes, pensei em chamá-las, mas não resistí a curiosidade de ficar observando o seu sono. E tão encantado fiquei, que decidi deixá-las em seu leito...
Deste então velo o seu sono confortavelmente.
E hoje, o meu conforto é a minha inquietude.
22.08.2002
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Cansado
Tudo me interessa
e nada me distrai.
Estou deitado
na minha pressa
de me desligar.
Mofo curvado
no limbo do sofá,
num deslumbre
quase hipnótico
pelo que não me atrai.
Troco os canais...
com as idéias,
só com o olhar,
com um clique, num piscar.
E tudo diferente...
nada mais
à minha frente
permanece inteiro.
Desconcentro
e não penso em nada,
nada que não seja gente,
amor, espaço,
dinheiro...
tudo preto,
adormeci.
(atitude mais que correta quando se quer fugir)
26.06.2001
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Hoje (como antigamente)
hoje, como num outro qualquer
e um pouco mais como nos de antes,
quando os dias eram (mais) angustiantes,
um grito em mim emudece, contido e pálido.
melhor que o mundo não saiba da tristeza
que se esconde (e está presa)
neste sorriso inválido.
17.02.2004
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Crise
Assim como eu, a luz mudou.
Agora acesa, não desenha
as sombras com o mesmo
traço e não reconheço
o contorno frio-azulado,
quase escasso nas paredes...
... mudaram de cor como o
teto, os móveis, a cama...
que não me acolhe mais,
nem me chama.
Sinto falta do amarelo,
do quente, da incandescência,
da pele ilusoriamente
bronzeada pelos 100 watts de
potência.
E eu aqui racionando tempo,
eletricidade, sono...
me obrigando a economizar
neurônios, sem conseguir
deixar de me consumir.
29.05.2001
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Insomnia II
Frestas e buracos,
que percebo e procuro nas paredes
procurando preencher
esperando e esperando...
sempre continuo a esperar
que algo venha a acontecer.
Inquieto na impaciência
de inventar inconscientemente
o que eu acho que tem de ser "in"!
pois nada disso tem a ver
com o que realmente gostaria de ter...
olho pasmado os meus cabelos
com as poucas curvas suficientes
para deixá-los despenteados.
Imaginando formas,
acreditando em desenhos que possam existir
a cada balançar da minha cabeça,
e a cada fio que eu reconheça,
me presto a afirmar que em nova procura,
não sou capaz de identificar
o que me está tão próximo.
1997
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Contando carneiros
Espera estúpida, esta minha.
Enquanto todos já dormem, eu espero.
Ligando o ventilador quebro o silêncio. Assim passo o tempo tentando decifrar a música que ele toca.
Imaginando uma melodia qualquer, sei lá. Tentando identificar um ritmo, encontrar uma similaridade qualquer a qualquer coisa que seja.
Me canso.
O som não tem mais graça, já faz parte do silêncio. Tudo perde um pouca da graça depois de algum tempo.
Depois que não conseguimos diferenciar um segundo do outro e todos os "TIC-TACs" tornão-se apenas "TICs"
constantes e repetitivos. Assim como o som do ventilador. Apenas um ruído em "loop". (preciso me distrair com outra coisa).
Olho para a parede. Branca e uma mancha de sangue... Um tom de cinza nas arestas que encontram o teto.
Em todas as quatro. São sempre quatro. Olho para o teto. Acho a lâmpada. Fixo o olhar até poder vê-la reproduzida mesmo de olhos fechados.
E se a desligo, ela ainda está lá onde quer que eu olhe.
Lembro-me, já a "descasquei" em outras linhas:
"...não reconheço o contorno frio-azulado..." e "Sinto falta do amarelo, do quente, da incandescência..."
Gosto disso é bonito. Acho realmente que ficou bonito. Era bem o que sentia naquele momento. Falta de cor.
Mas as cores não falam, nem gritam. Também estão em silêncio agora que apaguei a luz.
Agora até as cores dormem. E eu aqui, no escuro esperando o sono chegar.
Espera estúpida, esta minha.
30.08.2002
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Outras vezes
Vez por outra,
tenho surtos hipnóticos
de efemeridade...
me distraio com o mundano,
mergulhando fundo
no que não tem profundidade,
pensando em círculos,
perdido em pieguices
numa pseudo-intelectualidade.
Vez por outra,
apelo para que a burrice
me invada...
que a ignorância e seus ruídos
emudeçam minha voz
e me deixem a mente calada,
que me livrem das dores
de consciência que o peso
da razão desaba.
Vez por outra,
me persigo investigando
motivos para felicidade...
cascavilho a memória
no equívoco de me provar
quão incertas são as verdades,
me afogando na angústia
de acreditar que o pensamento
é a porta da insanidade.
Outras vezes,
apenas vivo um dia após outro
e mais nada...
31.10.01 - 01h10
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
A voz da razão
Somente em absoluto silêncio
pode-se ouvir seu som...
A voz da razão é um sussurro,
que fere com estridência.
Fala lentamente, sem pressa...
e sádica, brinca com nossa paciência.
É imoral.
Desprovida de pudores.
E se desnuda desinibida
escrachando nossos valores.
11.2000
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Eu (só um)
sou extremo...
se escorro,
pois me espremo,
me socorro,
sou meu dreno.
se afundo,
pois mergulho,
volto ao mundo,
sem orgulho.
se me acho,
pois procuro,
sou meu facho
no escuro.
se me perco,
pois me cego,
sou o esterco
do meu ego.
2000
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Eus (e eu)
Por favor, eu, me desobrigue
de estar ante a minha presença
sai e largo-me aqui:
descrente das nossas crenças.
Sozinho em companhia
das tuas, minhas agonias
que não se separam se mim,
dos muitos que fomos um dia.
Saio e deixa-me ir
que velo atento o teu sono
dos já, não mais tanto, inocentes,
de inconseqüentes insanos
e trago-nos a minha mente
imagens de um outro agora,
memórias de um corpo dormente,
de um novo eu que foi embora.
07.02.2000
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
O que sou?
Não sou mais côncavo que o convexo,
nem agudo nem circunflexo,
não sou retro... ou introspecto,
pois sobre qualquer que seja o aspecto
só quero que me deixem ser
o que eu nem sei o quê.
1998
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Dú(í)vida
Tenho tudo o que mereço?
A dúvida tem o seu preço,
e ela me é companheira,
neste estado inconsciente
de me trazer consciência.
E se de mim me esqueço,
se por fim desapareço,
me esvaio que nem poeira,
nem louco, tampouco decente
sou limite da demência.
Na minha dor é que cresço,
na dor eu me fortaleço,
sua pronúncia traiçoeira,
é quem me faz ser vivente
me tirando a paciência.
Hoje sou meu recomeço,
ate meu fim já conheço
como a minha vida inteira,
e dele sou só semente
perdido em minha existência.
12.99
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Porque tudo é imbecil
Porque tudo é imbecil,
do sorriso leso
de uma boca sem dentes
aos passos lerdos
de um louco demente
e até mesmo eu
se me sinto contente.
Porque o mundo é idiota
com sua hipocrisia
sempre aparente
com a falsidade inumana
de sua gente
pois talvez até eu
ainda me julgue inocente.
E se é medíocre o que ama,
é porque um dia amando
se achou valente
por deixar para trás
tantos outros amores pendentes
e é assim como nós
burro, cego e inconseqüente.
1997
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
(... vazio)
... uma foto na moldura,
é um sorriso congelado
na lembrança,
sístole e diástole
de esperança.
Não faço idéia
do sábado que se aproxima,
nem do domingo,
nem da semana,
pois o fio de sentimento
que de mim emana
é dúvida...
Expiro, inspiro ou
paro?
Carrego, engatilho,
disparo?
Assôo, engulo ou
escarro?
06.2001
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Insomnia IV
Quando durmo
e desperto do que é real,
entendo-me que viver
de sonhos só seria possível,
se ao nos induzirmos
a esta inconsciência plena,
cerrássemos os olhos de alívio
permanecendo tranqüilos
no convívio pacífico
dos nossos eus.
21.11.2001
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Oco
Às vezes a solidão
me enche de um vazio
tão intenso,
que sinto-me oco
num máximo de plenitude.
Um misto de tristeza,
alegria e vontade de
chorar.
Às vezes sinto-me
tão frágil,
que meu próprio toque
me acalanta.
Dou-me um conforto,
que não quero
de mim.
... às vezes
sinto-me tão eu...
que me nego.
06.06.2001
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin
Branco
Branco,
imaculado e virgem...
tosco me ilude.
O papel a espera
de mim...
e das idéias
rudes.
Branco,
no escuro, medo e pavor
estampado nas caras
da virtude.
És luz, presença das cores
nos versos, que canto
amiúde.
Branco,
encardido, não importa
se eu o mude.
Alvejado em meu peito
ainda que me
desnude.
Branco,
vazio e imenso
em sua plenitude.
Ausência de qualquer
sentimento, pensamento
ou atitude.
10.04.2001
Alieksandr Míchkin
Alvejado por Alieksandr Míchkin

